Dieta carnívora faz mal ou tem benefícios? Veja o que é e mitos

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Dieta carnívora faz mal ou tem benefícios? Veja o que é e mitos
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Dieta popular nas redes sociais não é indicada por nutricionistas. Entenda por quê Proteínas - antes ou depois do treino? Nutricionista Cris Perroni tira as dúvidas
Um plano alimentar que tem se popularizado entre pessoas que desejam emagrecer ou ganhar massa muscular é a chamada dieta carnívora, que consiste em focar na ingestão de produtos de origem animal.
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Nesse regime, as refeições são compostas principalmente (ou totalmente) por carnes vermelhas ou de aves, peixes, ovos e laticínios com baixo teor de carboidrato, como certos queijos ou a manteiga. Ficam de fora os alimentos que compõem a base da dieta da maior parte das pessoas, como grãos, leguminosas, frutas, verduras e seus derivados.
Carne vermelha
iStock
Os adeptos dessa dieta alegam que ela é uma maneira eficiente de reduzir os níveis de açúcares no sangue — algo defendido por vários especialistas em nutrição — além de oferecer um elevado teor de proteínas.
Nutricionistas ouvidas pelo EU Atleta, no entanto, apontam que o consumo exclusivo de carnes, ovos e laticínios não configura uma dieta equilibrada, o que pode trazer riscos à saúde. Entenda, a seguir, os detalhes dessa polêmica.
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O que a ciência diz sobre a dieta carnívora?
De acordo com as especialistas consultadas pela reportagem, a dieta carnívora não tem embasamento científico, já que não há muitos estudos nem resultados sólidos que justifiquem a adoção desse padrão alimentar. Mesmo que algumas pessoas relatem supostos benefícios, estes são baseados em experiências individuais influenciadas por diversos outros fatores, e, portanto, não devem ser equiparados a evidências científicas.
Por outro lado, há indícios de que a dieta carnívora pode trazer riscos. Existem dois motivos principais para isso. Por um lado, apenas carnes, ovos e laticínios não são suficientes para suprir a ingestão diária recomendada de diversos nutrientes. A nutricionista Michele Trindade, consultora da Associação Brasileira de Nutrição, explica que ficam faltando na dieta principalmente carboidratos e fibras, que estão presentes principalmente nos vegetais.
— As fibras, por exemplo, contribuem para a saciedade, ajudam na formação do bolo fecal e servem de alimento para as bactérias boas do intestino. Uma dieta à base de carnes tem zero teor de fibras e vai contra tudo isso — afirma ela.
O outro lado do problema com a dieta carnívora é que ela propicia a ingestão excessiva de certos nutrientes, em especial proteínas e gorduras, que passam a ser as principais fontes de energia do corpo na ausência de carboidratos.
— Quando falta glicose, o fígado tem que fazer uma conversão bioquímica para transformar proteínas e gorduras em energia. A dieta carnívora pode acabar aumentando a demanda sobre o funcionamento do fígado e também dos rins, pois os resíduos dessa conversão têm de ser eliminados pela urina — detalha.
Leite
Istock Getty Images
Além disso, o risco para doenças cardiovasculares também é potencialmente aumentado, já que o consumo excessivo de gordura pode levar ao aumento do “colesterol ruim” e ao entupimento das artérias, elevando as chances de infarto, por exemplo.
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A nutricionista Taís Rodrigues também reforça que uma dieta 100% à base de produtos de origem animal não é recomendada. No entanto, ela afirma que uma dieta quase carnívora ou cetogênica (em que o consumo de carboidratos é restringido) pode ser usada por períodos curtos e com objetivos específicos — mas nunca encarada como um estilo de vida.
— Essa é uma dieta nutricionalmente pobre; incompleta em termos de entrega de nutrientes no geral. Ela não cuida da microbiota intestinal e não atende a algumas funções bem básicas do corpo. Pode até entregar resultados como emagrecimento a curto prazo, mas não é uma dieta sustentável — afirma.
A especialista lembra, ainda, que dietas do tipo indicadas por nutricionistas não são tão restritivas quanto a dieta carnívora e incluem alimentos como leguminosas e oleaginosas, garantindo a ingestão adequada de macro e micronutrientes.
Confira mitos e verdades sobre a dieta carnívora
Dieta carnívora pode ajudar a emagrecer?
Sim, mas de uma maneira pouco saudável. Isso acontece porque ela elimina completamente os carboidratos da alimentação, fazendo com que o corpo passe a utilizar a gordura como fonte de energia. Além disso, o alto consumo de proteínas promove maior saciedade, o que tende a reduzir a ingestão calórica ao longo do dia.
Essa combinação pode até resultar em um déficit calórico natural e na perda de peso, mas esse tipo de emagrecimento não costuma ser sustentável no longo prazo. Isso porque a dieta é extremamente restritiva, o que pode causar deficiências nutricionais e perda de massa magra.
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Também há risco de efeito rebote, já que muitas pessoas não conseguem manter uma dieta tão restrita e podem acabar retomando maus hábitos ou caindo em compulsão alimentar.
Dieta carnívora pode ajudar a ganhar massa muscular?
Não necessariamente. A dieta carnívora até fornece as proteínas necessárias para a construção muscular. No entanto, ela não é a abordagem mais eficiente para quem quer ganhar massa muscular, especialmente porque elimina completamente os carboidratos da alimentação.
Os carboidratos são essenciais para fornecer energia durante os treinos e para a recuperação muscular. Sem eles, o rendimento físico tende a cair e o corpo pode entrar em catabolismo, ou seja, usar a própria massa muscular como fonte de energia.
Frango, carne vermelha e peixe
iStock
Vale lembrar, ainda, que a dieta brasileira típica já tende a ser hiperproteica e que o corpo não consegue absorver proteínas além de certo limite. Quando o consumo é grande demais, o excesso é simplesmente eliminado pela urina.
Dieta carnívora é mais natural?
Não faz sentido afirmar. Isso porque o corpo humano é biologicamente preparado para uma dieta onívora — então consumir vegetais é tão natural quanto consumir carnes. Vale lembrar que, ao longo da história, a dieta na maior parte das culturas esteve baseada no consumo de vegetais, aos quais eram somadas pequenas porções de carnes e produtos de origem animal.
Ou seja: uma dieta a base de carnes frescas pode ser até mais natural que uma alimentação à base de ultraprocessados, mas não faz sentido dizer que ela é mais natural ou “ancestral” em comparação a uma dieta rica em vegetais frescos, grãos, leguminosas e outros carboidratos integrais.
Dieta carnívora ajuda a controlar diabetes?
É controverso. Por cortar os carboidratos, a dieta carnívora contribui para a manutenção de baixos níveis de glicose no sangue. No entanto, também aumenta o risco de hipoglicemia (especialmente para pessoas em uso de insulina) caso as taxas de glicose não sejam monitoradas com cuidado.
Outro resultado da dieta carnívora é a eliminação de fibras na alimentação. As fibras ajudam a regular a digestão, proporcionando uma absorção gradual da glicose pelo corpo. Quando elas estão ausentes, qualquer carboidrato é absorvido muito rapidamente, gerando picos de glicemia que, segundo alguns autores, podem agravar problemas relacionados ao diabetes.
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Dieta carnívora melhora psoríase?
Existem relatos isolados sobre a suposta melhora. Mas, mais uma vez, as nutricionistas ouvidas pelo EU Atleta são unânimes em afirmar que não há estudos confiáveis que apontem benefícios da dieta carnívora no controle de problemas de saúde. Na verdade, no caso específico da psoríase, uma dieta rica em carnes vermelhas poderia aumentar a resposta inflamatória do organismo, contribuindo, em tese, para a piora da condição.
Dieta carnívora acaba com a compulsão por doces?
Também não. A dieta carnívora pode até proporcionar uma maior sensação de saciedade graças ao consumo elevado de proteína, mas isso não é o suficiente para alterar os padrões comportamentais que levam à compulsão alimentar. Para algumas pessoas, inclusive, a restrição severa na alimentação pode ser gatilho para episódios compulsivos, capazes de comprometer inteiramente um plano alimentar.
Além do mais, esse também é um caso em que a falta de fibras faz diferença. Como já explicado, a ausência delas leva aos picos de glicemia quando algum carboidrato é ingerido — e estes, por sua vez, são seguidos por picos de insulina e quedas muito acentuadas nos níveis de glicose no sangue, que disparam uma sensação de urgência por alimentos ricos em carboidratos.
Dieta carnívora proporciona energia e resistência para atividades físicas extremas?
Não há evidência. A alta ingestão de proteínas como a creatina e a albumina em adeptos da dieta carnívora poderia, em tese, contribuir para um ganho de desempenho nos treinos de alta intensidade. No entanto, ela muito provavelmente não é capaz de compensar a falta de glicose, que é o principal “combustível” do corpo para qualquer atividade física.
Na verdade, a falta crônica de carboidratos pode colocar o organismo em um estado de “emergência”, provocando fadiga e baixa resistência ao esforço. A própria massa magra pode ser comprometida, especialmente se houver déficit calórico prolongado, já que o corpo pode recorrer às proteínas musculares para gerar energia Em resumo, se você quer ter saúde e um bom desempenho físico, o melhor é apostar em uma alimentação diversificada.
Fontes:
Michele Trindade é nutricionista e professora de Educação Física, com doutorado pela USP É vice-presidente da Associação Brasileira de Nutrição Esportiva (ABNE), docente da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e consultora da Associação Brasileira de Nutrição (ASBRAN).
Taís Rodrigues é nutricionista esportiva. Atende no Rio de Janeiro e em São Paulo.

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